Nós é Ruim e Mora Longe

Ao entrar no Museu da Inconfidência, sentimos o espaço de contenção.
A arquitetura, os objetos históricos e a própria expografia convidam ao silêncio e à repressão de nossos corpos, como se a história pudesse ser apreendida apenas pela contemplação das formas preservadas. Porém, esse aparente silêncio respeitoso não é exatamente uma ausência de som. Ele é uma construção cultural, produzida pelas instituições museais para conter a presença do corpo diante de determinadas narrativas e converter conflitos históricos em fragmentos de uma memória aparentemente em consenso.

Ruídos se Organizam, exposição de Ítalo Almeida que integra o Programa de Intervenções do Museu da Inconfidência, desloca esse regime de escuta. Resultado de uma residência de quatro meses em Ouro Preto, a exposição nasce da percepção de que a cidade pode ser compreendida não apenas por suas igrejas, monumentos ou fachadas coloniais, mas por uma cosmologia sonora que atravessa sua história e continua reverberando no presente. Antes de investigar imagens, o artista dedicou-se a ouvir: os sons cotidianos dos bairros periféricos, as músicas religiosas, as narrativas orais, os ecos das fábricas de alumínio, os ritmos das congadas, os deslocamentos dos jovens cavaleiros – de hoje e de ontem – , os rumores que escapam aos roteiros turísticos.

Ao longo da história mineira, homens e mulheres afrodescendentes produziram parte decisiva dessa paisagem acústica. Foram músicos das irmandades religiosas, trombeteiros escravizados, artesãos, trabalhadores das minas e das fábricas, integrantes de congados, foliões. Em muitos casos, seus corpos permanecem pouco representados nos acervos visuais ouropretanos. Seus sons, entretanto, estruturaram profundamente a experiência social do território. A exposição propõe ouvir justamente aquilo que permaneceu nas margens da narrativa monumental.

Em vez de ilustrar essa história, Almeida constrói dispositivos que a reativam. O som deixa de funcionar como ambientação e torna-se matéria escultórica. Vibra, ocupa o espaço, atravessa superfícies, conecta objetos e reorganiza a circulação do visitante.

Texto de Ana Avelar.

"Nós é Ruim e Mora Longe" .