8º Bolsa Pampulha

Amanda Carneiro, 2022

A prática artística de Ítalo Almeida se desenvolve em torno dos registros fotográficos ou audiovisuais de cenas cotidianas, ficcionalizando o que se apresenta como corriqueiro. Em geral, o foco se direciona a transeuntes, à vezes desconhecidos, mas também figuras próximas, que se tornam personagens de espaços e situações urbanas.

O que inicialmente pode parecer uma ação documental, de inevitável referencialidade social a instituições, relações, gestos e modos de ser e estar no mundo, se revela como um procedimento entre o real e a fantasia, marcado por certo ar absurdo constituído de foco em elementos pouco usuais, como uma pose improvável ou um componente visual de potencial icônico.

O uso de cores saturadas e certa irreverência operam uma alternativa ao registro que se ambiciona descritivo e fiel. Para a Bolsa Pampulha, o artista se desafiou a lidar com a técnica de tableau, que na fotografia estabelece dialogo com aspectos teatrais e consiste em criar imagens vivas a partir de cenas estáticas, em que modelos caracterizados são minuciosamente dirigidos para reforçar dimensões dramáticas ou trágicas. Em uma de suas séries, Almeida destaca a prática de surf no ônibus, majoritariamente realizada por jovens periféricos como forma de diversão, mas que, por seu caráter transgressor e inevitavelmente arriscado, divide opiniões entre observadores. Muito além da atividade em si, há outros elementos fundamentais nas imagens, como o cabelo descolorido, as vestimentas e sobretudo o jogo entre retratar e ser retratado.

O que para alguns é apenas registro e para outros caricato, acaba por operar uma provocação. No Viaduto das Artes, essa forma de deleite que se dá em veículos em movimento é reforçada por uma fotografia que se refere aos trenzinhos da alegria, aqui, porém, as personagens são constituídas por membros de uma “família tradicional mineira”. Diante da imagem, entretanto, é possível se questionar quais famílias se enquadram no que é tradicional mineiro. Esta também é

base para a instalação de três outras imagens, em que se vê uma senhora no supermercado, um bar de bilhar e uma cena de briga de bar numa fila de boate, em que ocorre uma nítida tensão de caráter racial. Intitulada «Tente usar a roupa que eu estou usando», a série elabora uma alegoria visual de vivências comuns à jovem geração belo-horizontina da qual o artista faz parte.