Assistência Artística: Letícia Ferraz e Gia Tristão
Modelagem 3D: Gia Tristão
Instalações Sonoras: Caixa Alta (Natalie Pereira, Lucas Emerick);
Serralheria: João Paulo Pimentel
Miserere No. 1 (2025-2026) é uma instalação sonora e tridimensional resultante de uma residência artística realizada no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.
A obra parte da análise do acervo da Coleção Curt Lange, que reúne manuscritos de música sacra dos séculos XVIII a XX e revela que a produção musical colonial era majoritariamente conduzida por homens pretos e pardos, organizados em irmandades religiosas.
Embora esses músicos seguissem estritamente os cânones europeus sob vigilância da Igreja Católica sem inscrever elementos culturais africanos nas partituras, a obra tensiona essa ausência ao retrabalhar a composição homônima do músico negro Manoel Dias de Oliveira.
A instalação divide as frequências dessa peça por quatro torres de alumínio interconectadas por elásticos que reagem aos graves e tornam a vibração acústica e o conflito sônico visíveis ao público. No topo das torres, figuram esculturas estilizadas a partir de códigos adinkras — símbolos do povo Ashanti presentes na arquitetura das igrejas mineiras —, inscrevendo visualmente a presença que foi omitida nas partituras coloniais.
A materialidade do trabalho conecta a produção artística diretamente às lógicas industriais e de trabalho do território de Ouro Preto. A pedra-sabão, matéria-prima histórica do artesanato e da ornamentação sacra regional, foi esculpida em colaboração direta com artesãos do distrito de Santa Rita de Ouro Preto. O alumínio evoca a consolidação econômica pós-ciclo do ouro no município por meio da extração da bauxita e das plantas fabris operadas por mão de obra predominantemente negra.
Além disso, como aceno aos copistas do período colonial — que reproduziam partituras manualmente em linhas de montagem funcionais e velozes —, os materiais são apresentados sem acabamentos refinados, vernizes ou polimentos, mantendo soldas, cortes brutais e junções expostas que priorizam a função e o tensionamento do espaço.