{"id":44,"date":"2026-08-03T23:29:16","date_gmt":"2026-08-04T02:29:16","guid":{"rendered":"https:\/\/cmgngmpod.com\/?page_id=44"},"modified":"2026-09-04T18:42:30","modified_gmt":"2026-09-04T21:42:30","slug":"blog","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cmgngmpod.com\/en\/blog\/","title":{"rendered":"Texts"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"44\" class=\"elementor elementor-44\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-a7e4daf e-con-full e-flex e-con e-parent\" data-id=\"a7e4daf\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-d3186fe elementor-widget elementor-widget-posts_list\" data-id=\"d3186fe\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"posts_list.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t    <div class=\"w-full bg-white text-black antialiased relative\">\n\n      <!-- Bot\u00e3o Voltar -->\n      <a href=\"\/\" class=\"absolute top-6 left-6 z-10 text-black hover:opacity-60 transition-opacity\">\n        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/api.iconify.design\/material-symbols-light:arrow-left-alt.svg\" style=\"height: 40px;\" \/>\n      <\/a>\n\n      <!-- Cabe\u00e7alho (CLIPPING) -->\n      <div class=\"w-full md:px-8 pt-24 pb-8 md:pb-12 border-b border-black\">\n        <h1 class=\"text-3xl md:text-[40px] font-extrabold uppercase tracking-wide m-0\">\n          TEXTOS        <\/h1>\n      <\/div>\n\n      <!-- Corpo Principal (Divis\u00e3o Esquerda Vazia \/ Direita Lista) -->\n      <div class=\"w-full flex flex-col md:flex-row min-h-screen\">\n\n        <!-- Coluna Esquerda: Espa\u00e7o Vazio -->\n        <div class=\"hidden md:block w-full md:w-[500px] shrink-0\">\n          <!-- Ocupa espa\u00e7o para alinhar a lista \u00e0 direita -->\n        <\/div>\n\n        <!-- Coluna Direita: Lista de Clippings -->\n        <div class=\"w-full md:flex-1 flex flex-col md:border-l border-black\">\n\n                      <div id=\"clipping-list-container-d3186fe\" class=\"flex flex-col w-full\">\n                              <!-- <pre>WP_Post Object\n(\n    [ID] => 1862\n    [post_author] => 1\n    [post_date] => \n    [post_date_gmt] => 2026-09-14 21:12:22\n    [post_content] => \n    [post_title] => Bolsa Pampulha #3 \u2014 Surfistas\n    [post_excerpt] => \u00cdtalo Almeida; 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Nunca havia morado t\u00e3o pr\u00f3ximo da natureza. Nunca tinha visualizado diariamente tanto verde, montes, perspectivas em v\u00e1rios \u00e2ngulos que me permitissem visualizar o horizonte at\u00e9 ele ser barrado por algum corpo bruto natural.\r\n\r\nN\u00e3o bastasse enxergar belezas e tens\u00f5es com meus olhos, os cheiros tamb\u00e9m prendiam minha aten\u00e7\u00e3o no dia-a-dia. Aqueles cheiros cl\u00e1ssicos, que trazem conforto e familiaridade pra minha ess\u00eancia mineira. Desde temperos que lembram os da minha av\u00f3, ou o cheiro da couve refogada no alho\u2026 Ou at\u00e9 em momentos em que eu nem precisava olhar o rel\u00f3gio para saber que eram 16:00, pois bastava sentir o cheiro de caf\u00e9 em diversas esquinas. A chuva intensa e seu aroma de terra e pedra molhada tamb\u00e9m se sobressa\u00edram muito.\r\n\r\nSentir o solo tamb\u00e9m era muito diferente. Aqui eu ando em ruas constru\u00eddas com rochas polidas, as cal\u00e7adas lajeadas com a pedra que tem o nome da cidade. Terra e grama s\u00e3o t\u00e3o acess\u00edveis, assim como a sensa\u00e7\u00e3o de pisar descal\u00e7o na areia da cachoeira depois de caminhadas de menos de 40 minutos saindo do centro da cidade.\r\n\r\nPor\u00e9m, nesses quatro meses de resid\u00eancia, foi o som que guiou minha produ\u00e7\u00e3o.\r\nEu tinha acabado de filmar meu segundo curta, e foi o som que salvou meu trabalho de n\u00e3o atingir um resultado que eu gostaria. Num acidente, ru\u00eddos e vozes me permitiram criar uma narrativa que eu, essencialmente um fot\u00f3grafo, nunca tinha se permitido.\r\n\r\nEu tamb\u00e9m havia sido impactado pelo trabalho \u201cAuto Sacramental Invisible. Una representaci\u00f3n sonora a partir de Val del Omar\u201d de Ni\u00f1o de Elche na Bienal de S\u00e3o Paulo.\r\nEu me senti desafiado a provocar em mim um contexto mais sonoro e n\u00e3o demorei pra entender que Ouro Preto poderia me fomentar diversas provoca\u00e7\u00f5es s\u00f4nicas para debater.\r\n\r\nMais especificamente, o conflito sonoro, que inclusive \u00e9 uma coisa constante aqui. A calmaria do gorjeio dos p\u00e1ssaros sobrensa\u00eddos pelos sinos imensos. O som de um grilo interrompido pelo som dos carros num efeito Doppler passando em cima das pedras, guiados pela juventude universit\u00e1ria com suas m\u00fasicas e falat\u00f3rio. Tem m\u00fasica tamb\u00e9m, principalmente crian\u00e7as. N\u00e3o tem tanta gritaria, entretanto. Para um homem da cidade, era terrivelmente quieto andar pelas ruas na madrugada do bairro Cabe\u00e7as, um dos bairros em que morei no per\u00edodo. Parecia mais f\u00e1cil ouvir o vento acompanhado da neblina do que o som de outros seres humanos. Para tudo come\u00e7ar de novo \u00e0s 04:50 da manh\u00e3.\r\n\r\nO conflito ao qual me refiro \u00e9 entre o sil\u00eancio e o romper deste sil\u00eancio. De situa\u00e7\u00f5es sonoras que come\u00e7am bin\u00e1rias e v\u00e3o escalando, criando camadas at\u00e9 se tornarem uma coisa maior.\r\n\r\nConflito foi minha primeira provoca\u00e7\u00e3o aqui. E ele foi justamente na minha pequena viv\u00eancia no Museu da Inconfid\u00eancia. Na verdade, na incapacidade do museu, em sua configura\u00e7\u00e3o atual que dura mais de 20 anos, de trazer \u00e0 tona essa caracter\u00edstica da cidade: um territ\u00f3rio de conflitos cont\u00ednuos.\r\n\r\nEsse pr\u00e9dio, que j\u00e1 foi chamado de Casa de C\u00e2mara e Cadeia, prop\u00f5e desde o primeiro momento uma disputa tanto em exist\u00eancia quanto em elementos arquitet\u00f4nicos, como em seu teto, com quatro grandes est\u00e1tuas nas extremidades simbolizando prud\u00eancia, temperan\u00e7a, justi\u00e7a e for\u00e7a, em alus\u00e3o ao conflito da Coroa contra a popula\u00e7\u00e3o mineira.\r\n\r\nAo entrar no espa\u00e7o do museu, a expografia tamb\u00e9m peca nesse aspecto. Pouqu\u00edssimo \u00e9 o acervo que representa, na Sala das Origens, os povos origin\u00e1rios. Entretanto, existe sim uma coisa interessante a se pontuar: o primeiro objeto que encontramos ao entrar na sala \u00e9 justamente uma urna funer\u00e1ria ind\u00edgena.\r\n\r\nMas depois disso a coisa fica esquisita. Salas que trabalham de forma sup\u00e9rflua objetos de tortura de escravizados. O p\u00fablico costuma achar interessante essa forma espetacularizada de trabalhar esse assunto, por\u00e9m na sala seguinte, os pretos logo cedem protagonismo para o movimento Inconfidente (esse que tamb\u00e9m \u00e9 mal trabalhado, uma vez que objetos como a suposta cruz utilizada por ele tem um destaque absurdamente maior que outros itens do acervo que tem uma maior import\u00e2ncia, e que s\u00e3o basicamente escondidos).\r\n\r\nEu poderia enumerar muitas coisas, mas para ser mais objetivo, basta dizer que o andar inferior termina numa sala rodeada de itens da monarquia, quadros de imperadores e imperatrizes, sendo que logo antes est\u00e1 o pante\u00e3o com os ditos \u201cHer\u00f3is da Inconfid\u00eancia\u201d.\r\n\r\nTudo \u00e9 muito confuso e n\u00e3o reproduz o potencial de ilustrar os conflitos que aconteciam tanto naquele territ\u00f3rio quanto no restante do pa\u00eds.\r\n\r\nSem falar obviamente, do lugar que as figuras do negro e do ind\u00edgena s\u00e3o colocadas nesse espa\u00e7o. A falta de protagonismo e de men\u00e7\u00f5es diretas a figuras e movimentos negros e origin\u00e1rios que moldaram aquela sociedade. A parte de Chico Rei, uma figura que pode ser equiparada ao pr\u00f3prio Tiradentes, um mito a partir de um homem que molda toda uma tradi\u00e7\u00e3o, ligada diretamente ao territ\u00f3rio de Ouro Preto. Para Chico por\u00e9m, apenas resta uma nota de rodap\u00e9 em um dos totens cheio de textos do espa\u00e7o.\r\n\r\nImportante citar tamb\u00e9m o mobili\u00e1rio expogr\u00e1fico e a ilumina\u00e7\u00e3o. De dentro do museu n\u00e3o se v\u00ea a cidade, ainda que de l\u00e1 exista uma vista privilegiada. Ao inv\u00e9s disso, quem visita pode se sentir \u201cenclausurado\u201d num ambiente escuro, de pouqu\u00edssima luz e essas, artificiais e macabras, a grande maioria holofotada, sombria. Os mobili\u00e1rios expogr\u00e1ficos s\u00e3o em sua grande maioria vitrines de vidro e alum\u00ednio \u2013 material esse que mais adiante tamb\u00e9m influencia na minha produ\u00e7\u00e3o durante a resid\u00eancia.\r\n\r\nO diretor do Museu, Alex foi um dos que me provocaram a observar esse ponto da expografia do museu. E foi ele quem me apresentou o material que foi o primeiro passo da minha produ\u00e7\u00e3o: A cole\u00e7\u00e3o Curt Lange.\r\n<h2>Obra 1<\/h2>\r\nEsse acervo cont\u00e9m documentos dos s\u00e9culos XVIII ao XX. Em sua maioria, obras de of\u00edcios religiosos, m\u00fasicas para banda, um pequeno n\u00famero de m\u00fasicas para orquestra, para piano, modinhas e trechos de \u00f3peras. Curt Lange era alem\u00e3o, nascido em 1903, e veio para a Am\u00e9rica do Sul em 1923, no per\u00edodo p\u00f3s-guerra, e pouco depois se naturalizou uruguaio. Veio parar no Brasil, insistindo em construir uma esp\u00e9cie de identidade sonora sul-americana, numa \u00e9poca em que os modernistas e Vargas s\u00f3 queriam saber de \u201cconstruir o Brasil\u201d.\r\n\r\nSem muito sucesso no seu empreendimento inicial, veio por acaso visitar Minas Gerais e numa de suas sa\u00eddas pela antiga capital mineira, \u00e9 apresentado a um pequeno acervo musical, oriundo de uma das in\u00fameras irmandades terceiras da cidade.\r\n\r\n\u00c0s vezes voc\u00ea est\u00e1 no momento certo na hora certa, e n\u00e3o sei dizer se isso se aplica a esse momento em que Curt Lange encontrou esse arquivo. Fato \u00e9 que ele fez disso sua grande miss\u00e3o de vida: ir atr\u00e1s de todo material musical poss\u00edvel que fora produzido naquele territ\u00f3rio mineiro, que estava completamente espalhado e descentralizado pelo pa\u00eds.\r\n\r\nAs m\u00fasicas sacras se destacavam, talvez por n\u00famero ou complexidade de composi\u00e7\u00e3o. Para mim, o fato mais interessante \u00e9 que hoje em dia, o material mais not\u00f3rio dessa cole\u00e7\u00e3o \u00e9, essencialmente, produ\u00e7\u00f5es de homens pretos e pardos.\r\n\r\nAssim como toda tarefa bra\u00e7al, manual, a m\u00fasica era uma fun\u00e7\u00e3o de homens pretos e pardos. Escravizados ou forros, eles eram os \u201cemissores musicais\u201d que embalavam comemora\u00e7\u00f5es, cortejos, missas e diversos outros sons.\r\n\r\nExistiam diversas irmandades, mas duas das mais not\u00f3rias s\u00e3o as irmandades negras do Ros\u00e1rio. As irmandades funcionavam como grupos em que homens pretos e pardos poderiam viver em comunh\u00e3o, mas claro, com base numa contribui\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria. As irmandades, por sua vez, cuidavam deste membro, at\u00e9 mesmo no seu momento de morte. Esse movimento de pertencer a uma irmandade pode ser considerado justamente uma tentativa dessa popula\u00e7\u00e3o preta de obter valida\u00e7\u00e3o, respeito e humanidade num mundo que os desumaniza; uma forma de tentar ser reconhecida como \u201cgente\u201d por uma sociedade que associa humanidade \u00e0 branquitude e \u00e0 riqueza.\r\n\r\nAs disputas entre as irmandades eram ferrenhas, dada a forma\u00e7\u00e3o daquele territ\u00f3rio. Antes de ser Vila Rica, dois arraiais concentravam grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Depois da uni\u00e3o, uma disputa divide o centro hist\u00f3rico ouro-pretano em dois lados: o dos Jacubas, moradores do arraial Ant\u00f4nio Dias e em sua maioria portugueses, e o dos Mocot\u00f3s, moradores do arraial de Ouro Preto e em sua maioria paulistas, sendo a Pra\u00e7a Tiradentes, antigo Morro de Santa Quit\u00e9ria, a linha \u2013 imagin\u00e1ria \u2013 que divide ambos.\r\n\r\nDa\u00ed vem a origem das constru\u00e7\u00f5es das in\u00fameras igrejas da cidade. E antes das igrejas tinham as capelas. Se o lado paulista tinha uma Irmandade do Ros\u00e1rio, que fez erguer a igreja de Santa Efig\u00eania, do lado portugu\u00eas seria incentivada a exist\u00eancia de outra confraria de homens pretos e partos com nome similar, e tamb\u00e9m sua igreja do Ros\u00e1rio dos Pretos.\r\n\r\nE dentro dessas igrejas com grandiosas missas e no meio de disputas por status e reconhecimento, eram reproduzidas as m\u00fasicas do acervo Curt Lange. M\u00fasicas em latim, interpretadas, escritas e tocadas por m\u00fasicos negros e pardos, alforriados ou escravizados.\r\n\r\nMe peguei interessado por toda essa hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m num fato espec\u00edfico: diferente de outras frentes art\u00edsticas, como a escultura, a arquitetura e a pintura, os homens pretos daqueles grupos musicais n\u00e3o inseriram elementos sincretizados dentro de suas produ\u00e7\u00f5es.\r\n\r\nAo entrar nas igrejas, \u00e9 f\u00e1cil visualizar elementos da cultura africana esculpidos em port\u00f5es, esculturas de santo, partes do altar, etc. In\u00fameros s\u00edmbolos adinkras \u2013 c\u00f3digos do povo Ashanti \u2013, est\u00e3o espalhados dentro das igrejas e por diversas outras constru\u00e7\u00f5es erguidas com m\u00e3o-de-obra preta na cidade.\r\n\r\nTodavia, n\u00e3o existem elementos africanos ou ind\u00edgenas dentro de grande parte dessas composi\u00e7\u00f5es musicais pretas, feitas sob absoluta vigil\u00e2ncia da igreja cat\u00f3lica. Toda a produ\u00e7\u00e3o seguia o jeito europeu de compor m\u00fasica, tendo sido importada pelos portugueses toda uma forma de execu\u00e7\u00e3o. Inclusive por isso \u00e9 errado citar a m\u00fasica da \u00e9poca como m\u00fasica barroca.\r\n\r\nTodos esses elementos acima me inspiraram para projetar a instala\u00e7\u00e3o \u201cMiserere No.1\u201d composta por 4 torres de alum\u00ednio com alto-falantes, que reproduzem uma vers\u00e3o alterada de \u201cMiserere No.1, de Manoel Dias de Oliveira, m\u00fasico presente no acervo Curt Lange. Cada torre emite uma faixa de frequ\u00eancia diferente, e as torres e seus falantes s\u00e3o interconectados por el\u00e1sticos que reproduzem as compress\u00f5es das frequ\u00eancias musicais. Essas compress\u00f5es deslocam os el\u00e1sticos para diferentes dire\u00e7\u00f5es, nos permitindo, al\u00e9m de ouvir, visualizar o conflito sonoro entre as torres.\r\n\r\nO n\u00famero 4 surge das 4 est\u00e1tuas do museu da Inconfid\u00eancia e seu significado punitivista. Aqui, \u00e9 feito um outro processo a partir desse n\u00famero:\r\n\r\nNo topo de cada torre, uma escultura estilizada a partir de s\u00edmbolos adinkras presentes nas igrejas onde foram produzidas essas can\u00e7\u00f5es que foram concebidas por homens que buscavam um lugar na sociedade e que utilizaram a m\u00fasica como of\u00edcio para uma escalada social.\r\n\r\nOs materiais prim\u00e1rios utilizados na instala\u00e7\u00e3o s\u00e3o familiares \u00e0 popula\u00e7\u00e3o preta da cidade. A pedra sab\u00e3o das esculturas \u00e9 notoriamente utilizada em diversos itens do dia a dia, mas tamb\u00e9m ornamenta as igrejas e \u00e9 o principal material artesanal do territ\u00f3rio.\r\nTrabalhei com artes\u00e3os de Santa Rita de Ouro Preto, distrito da cidade principal, sob a tutela de Clemente Fernandes e o aux\u00edlio de Jos\u00e9 Gomes e Ronaldo Gomes.\r\n\r\nO alum\u00ednio foi o \u201csegundo ouro\u201d da cidade, que ap\u00f3s o fim do ouro de verdade, viveu um momento de decad\u00eancia e se estabilizou gra\u00e7as \u00e0 minera\u00e7\u00e3o de bauxita e produ\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio, inclusive contando com uma grande f\u00e1brica nos arredores da cidade, operada por m\u00e3o de obra majoritariamente negra.\r\n\r\nTanto a f\u00e1brica de alum\u00ednio quanto o atelier de pedra-sab\u00e3o que fomentaram essa obra trabalham em escalas industriais, e quis me aproximar dessa forma\u00e7\u00e3o voltada para a linha de produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m como um paralelo \u00e0 parte musical que comp\u00f5e a obra. A termo tamb\u00e9m de acenar aos conflitos do ato de se produzir e promover m\u00fasicas, pois muitas obras do acervo tem sua autoria n\u00e3o autenticada. Tudo isso devido ao modelo de distribui\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, feito atrav\u00e9s de c\u00f3pias a m\u00e3o.\r\n\r\nO profissional que copiava partituras era chamado de copista. Eles desempenhavam um papel fundamental na preserva\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de obras musicais, visto que as prensas de impress\u00e3o eram caras e lentas. E sobretudo sem acabamento ideal, a fim de promulgar uma maior velocidade na divulga\u00e7\u00e3o do material. Da\u00ed a escolha de trabalhar com os materiais da obra em acabamento focado em funcionalidade, sem a etapa de verniz, polimento, apenas com cortes e colagens e solda, tanto no alum\u00ednio quanto nas pedras.\r\n<h2>Obras 2 e 3<\/h2>\r\nPara a segunda e terceira obras desenvolvidas no contexto da resid\u00eancia, trabalhei com a figura do \u201ctrombeteiro\u201d, fun\u00e7\u00e3o musical que esteve presente no in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o de Minas Gerais e era exercida por escravizados e homens forros.\r\n\r\nEra bastante cara a aquisi\u00e7\u00e3o destes homens que executavam essa fun\u00e7\u00e3o de sonorizar festas, anunciar a chegada de seus senhores em ambientes, ou at\u00e9 mesmo executar uma sonoriza\u00e7\u00e3o militar.\r\n\r\n\u201cPossuir\u201d um negro trombeteiro era considerado ostenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo na \u00e9poca. Por exemplo, o jesu\u00edta italiano Andr\u00e9 Jo\u00e3o Antonil (1650-1716), na obra intitulada Cultura e Opul\u00eancia do Brasil, declara que os ganhos com a atividade mineradora levaram os homens \u201ca gastar em superfluidades quantias extraordin\u00e1rias, sem reparo, comprando (por exemplo), um negro trombeteiro por mil cruzados &amp; uma mulata de mau trato por dobrado pre\u00e7o, para multiplicar com ela cont\u00ednuos e escandalosos pecados\u201d\r\n\r\nPor outro lado, ter essa fun\u00e7\u00e3o fazia com que os escravizados pudessem tamb\u00e9m experimentar um deslocamento social frente aos demais homens e mulheres pretas da \u00e9poca. Tendo a possibilidade de executar seus servi\u00e7os em outros ambientes, a possibilidade de aquisi\u00e7\u00e3o de ouro era maior, al\u00e9m do fato de que essa fun\u00e7\u00e3o era bem menos desgastante que outras obriga\u00e7\u00f5es.\r\n\r\nDe toda forma, \u00e9 uma figura que, embora descrita em diversos documentos, inclusive em outros estados como na Bahia e Pernambuco, foi pouco representada em pinturas e gravuras dos artistas da \u00e9poca. Durante minha breve pesquisa, s\u00f3 encontrei uma representa\u00e7\u00e3o, sem autoria, de um homem negro trombeteiro brasileiro.\r\n\r\nNessa figura que menciono, existe um homem negro soprando uma pequena trombeta, enquanto segura a r\u00e9dea de um cavalo. Ele veste uma casaca e usa chap\u00e9u e alguns outros adornos.\r\n\r\nA ideia de ser um propagador sonoro em cima de um cavalo cruzou com uma coincid\u00eancia que visualizei no morro de Santa Efig\u00eania e tamb\u00e9m em outras partes perif\u00e9ricas de Ouro Preto.\r\n\r\nAos finais de semana, \u00e9 comum visualizar garotos jovens que em suas folgas da aula ou trabalho, partem para um passeio a cavalo, ou uma cavalgada, curiosamente ao som de funk, trap e m\u00fasicas sertanejas tocadas a todo volume numa caixinha de som.\r\n\r\nAssim como os seus colegas cavaleiros de s\u00e9culos atr\u00e1s, esses garotos t\u00eam uma viv\u00eancia incipiente no centro da cidade; toda sua rotina gira em torno das margens do territ\u00f3rio. Visitam morros vizinhos, cavalgam para cidades pr\u00f3ximas, v\u00e3o a trilhas e cachoeiras, tudo aos arredores. Salvo os objetivos formais, como ir \u00e0 escola ou prestar algum servi\u00e7o, ou at\u00e9 mesmo ir \u00e0 rodovi\u00e1ria ou ao cart\u00f3rio, s\u00e3o dias e dias sem interagir, por exemplo, com os in\u00fameros turistas que v\u00eam de toda parte do mundo conhecer o passado de Minas Gerais, sem se dar conta do cen\u00e1rio destinado \u00e0 grande parte dos moradores atuais da cidade.\r\n\r\nAssim como os negros tombeteiros, os jovens cavaleiros atuais da cidade s\u00e3o invisibilizados de representa\u00e7\u00e3o, ainda que se saiba que eles ainda existem e perduram naquele territ\u00f3rio.\r\n\r\nAs fotografias CAVALEIRO II e CAVALEIRO I s\u00e3o a minha tentativa de registrar esses dois arqu\u00e9tipos da cidade. Conectados pelo passado e o presente, ambos simulam um movimento com o bra\u00e7o direito com seus respectivos instrumentos, em frente \u00e0 paisagem do campo.\r\n<h2>Obra 4<\/h2>\r\nA obra CONFIA NA BOCA vem do acesso a um enorme capital cultural obtido pelo artista ao conversar, escutar e cochichar com diversos cidad\u00e3os da cidade, que lhe ofereciam suas perspectivas sobre acontecimentos da hist\u00f3ria local, ainda que estes divergissem de alturas da imprensa, por exemplo.\r\n\r\nA tradicao oral foi o que permitiu os povos negros e pardos de se estruturarem dentro de Ouro Preto e tamb\u00e9m foi a minha maior fonte de pesquisa durante esse periodo. Foram cerca de 12 horas de \u00e1udio, entre conversas com lideran\u00e7as locais, pesquisadores, moradores, pessoas que almo\u00e7avam comigo, trabalhadores da f\u00e1brica de alum\u00ednio em per\u00edodos anteriores e atuais, al\u00e9m de claro, ru\u00eddos da cidade junto de conversas de transeuntes que capturei na minha janela. Aprendi muito sobre a cidade, sobre seus cidad\u00e3os pol\u00eamicos e outros que s\u00e3o orgulhos para a cidade, executando a pr\u00e1tica da boa e velha fofoca, que tanto fornece dados important\u00edssimos sobre um territ\u00f3rio, mas tamb\u00e9m ajuda a criar um imagin\u00e1rio que \u00e9 contestado em diversas fontes oficiais, o que nos leva em conflito com a documenta\u00e7\u00e3o produzida sobre o territ\u00f3rio, sobretudo as anteriores do s\u00e9culo XX, versus a cultura oral da cidade.\r\n\r\nUma escultura instalativa, composta de v\u00eddeos numa estrutura de alum\u00ednio, se inspira na possibilidade que a cultura oral mineira, sobretudo a ouropretense, de resistir sob forte vigil\u00e2ncia da coroa portuguesa e do per\u00edodo republicano e posteriormente, ditatorial do Brasil.\r\n\r\nA obra \u00e9 composta de telas e falantes, que reproduzem v\u00eddeos de bocas gravadas por mim, que interpretam algumas das informa\u00e7\u00f5es que extrai das horas de grava\u00e7\u00f5es com residentes de ouro preto. Inspirado no filme \u201cJogo de Cena\u201d, de Eduardo Coutinho, atores e atrizes recebem trechos dessas conversas e as interpretam, num tom de sussurro, evocando uma confiss\u00e3o. Uma outra conspira\u00e7\u00e3o moderna da cidade.\r\nComo toda fofoca, ela n\u00e3o pode ser compartilhada por um n\u00famero grande de pessoas. Um microfone da obra capta o n\u00famero de decib\u00e9is emitidos pelos visitantes do museu. Caso exista um grande n\u00famero de visitantes, a obra exibe outra imagem, e \u201cpara de se confessar\u201d, permitindo uma outra intera\u00e7\u00e3o com a obra.\r\n\r\nA obra \u00e9 composta de alum\u00ednio, pedra sab\u00e3o e conectores de pl\u00e1stico impressos em 3d.\r\n<h2>Obra 5<\/h2>\r\n\u201dGunga I\u201d \u00e9 uma obra cin\u00e9tica, composta por 4 gungas estilizadas, instrumento do congado que me traz curiosidade h\u00e1 algum tempo. Essa produ\u00e7\u00e3o veio inspirada tanto na for\u00e7a do Reinado negro de Ouro Preto quanto no de Minas Gerais como um todo, encontrando eco, sobretudo, no per\u00edodo em que trabalhei junto ao coletivo Deriva Cartogr\u00e1fica.\r\n\r\nDurante o processo do filme que realizamos com o coletivo, onde visitamos diferentes cidades mineiras e fotografamos os ternos de congado utilizando a t\u00e9cnica de dupla exposi\u00e7\u00e3o, fui enviado para Uberl\u00e2ndia. L\u00e1, a coisa que mais me impressionou visualmente foi a presen\u00e7a dos jovens carregando as gungas nas canelas. O instrumento nunca vinha sozinho; estava sempre acompanhado de t\u00eanis incr\u00edveis, como o Air Force 1 ou o Mizuno de 1000, criando um choque est\u00e9tico potente entre a tradi\u00e7\u00e3o ancestral e o asfalto contempor\u00e2neo.\r\n\r\nMais tarde, quando estive na Comunidade dos Arturos, em Contagem, essa engrenagem r\u00edtmica voltou a me capturar. Vi um artes\u00e3o de nome Fulano de Almeida trabalhar na feitura de gungas novas. Fiquei ali, parado, observando o homem testar as pe\u00e7as, completamente encantado com o ritmo que sa\u00eda daquele metal.\r\n\r\nFoi nesse momento que comecei a pensar nas frentes de minera\u00e7\u00e3o e no maquin\u00e1rio pesado que processa o alum\u00ednio, material esse que estava presente tanto nos objetos do Fulano quanto nos instrumentos dos meninos do Congo de Santa Cruz, dedicado a Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, que eu j\u00e1 havia fotografado na periferia de Ouro Preto. O som dessas f\u00e1bricas e engrenagens industriais nada tem a ver com os ritmos org\u00e2nicos e vivos produzidos por esses homens e mulheres atrav\u00e9s de seus p\u00e9s.\r\n\r\nA gunga \u00e9 um instrumento com uma hist\u00f3ria bem curiosa e cheia de controv\u00e9rsias. Durante minhas andan\u00e7as, ouvi testemunhos de pessoas falando sobre como a funcionalidade e o som estalado delas teriam sido inspirados nas correntes quebradas que ficavam presas aos tornozelos dos escravizados que fugiam; o barulho das esferas arrastando ou batendo permitia que os captores os identificassem no meio do mato para traz\u00ea-los de volta. Sob essa \u00f3tica, o instrumento seria um s\u00edmbolo dr\u00e1stico de ressignifica\u00e7\u00e3o da dor atrav\u00e9s do festejo. Por outro lado, vi muitas pessoas e lideran\u00e7as do pr\u00f3prio congado contestando veementemente essas hip\u00f3teses, refutando a ideia do trauma e trazendo novas narrativas de altivez e espiritualidade para a origem do instrumento.\r\n\r\nIndependente de qual seja a verdade hist\u00f3rica absoluta, a gunga \u00e9 bonita porque \u00e9 ritmada por um humano. Por um corpo presente que pica e repica o ar com seus movimentos, produzindo sons lindos e complexos que a m\u00e1quina rob\u00f3tica que constru\u00ed no atelier, e \u00e0 qual dei o mesmo nome, falha miseravelmente em replicar. O rotor que aciona a minha escultura faz um movimento mec\u00e2nico, duro, nada org\u00e2nico.\r\n\r\nA ideia de trabalhar com automa\u00e7\u00e3o veio de um resgate de uma viv\u00eancia minha no campo da mecatr\u00f4nica. Houve um momento em que o governo de Minas fomentava o ensino t\u00e9cnico visando o futuro de sua ind\u00fastria no pa\u00eds j\u00e1 dentro dos ambientes escolares, com crian\u00e7as de 15, 16 anos, aprendendo o of\u00edcio da programa\u00e7\u00e3o, torno, etc.\r\n\r\nTodo o contexto industrial de ouro preto hoje e nos \u00faltimos 60 anos conduz nas linhas paralelas essa s\u00e9rie, e \u201cGunga I\u201d \u00e9, no fim das contas, um esfor\u00e7o de lembrar que o movimento dos corpos perif\u00e9ricos de Minas Gerais \u00e9 o que realmente movimenta o espa\u00e7o urbano e o faz ser bonito e eficiente. Uma tentativa de simbolizar dignidade e criatividade a algo que, aos olhos do mercado, parece ordin\u00e1rio: quatro copinhos de alum\u00ednio enclausurando pequenas esferas de chumbo.\r\n<h2>Obra 6<\/h2>\r\nEm Ouro Preto, a arquitetura e a geografia n\u00e3o s\u00e3o apenas formas; s\u00e3o registros de poder. A obra JANTAR se materializa sobre uma das mesas do acervo do museu, na sua \u00e1rea mais pol\u00eamica na minha opini\u00e3o, a sala dos mobili\u00e1rios.\r\nNo imagin\u00e1rio dos visitantes, esses m\u00f3veis hist\u00f3ricos s\u00e3o frequentemente associados \u00e0 opul\u00eancia e \u00e0 riqueza colonial, muito em fun\u00e7\u00e3o da aura sagrada e intoc\u00e1vel com que s\u00e3o exibidos nas salas de exposi\u00e7\u00e3o.\r\nPara muitos residentes, o local \u00e9 alvo de piada. \u2013 \u201cA gente chama l\u00e1 de Topa Tudo do Museu\u201d, disse uma das pessoas que entrevistei que pediu para n\u00e3o se identificar, apelido esse que confirmei com outras pessoas.\r\nEssa tens\u00e3o que acontece neste museu me atentou a outra \u00e1rea da cidade, onde outras mesas de jantar prop\u00f5em din\u00e2micas parecidas e ocorrem em territ\u00f3rios fomentados pela ind\u00fastria do alum\u00ednio na cidade.\r\n\r\nGravei duas fam\u00edlias jantando, nas proximidades do bairro da Bauxita (nome do mineral prim\u00e1rio na produ\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio) de um lado, a Vila dos Engenheiros; do outro, a Vila dos Oper\u00e1rios. Separadas por apenas uma rua principal, as duas vilas operam em frequ\u00eancias opostas.\r\nNa Vila Oper\u00e1ria, junto aos tilintar dos pratos, existe um bipe constante de m\u00e1quinas dando r\u00e9, e chapas caindo no ch\u00e3o. Na Vila dos Engenheiros, o som constante \u00e9 substitu\u00eddo pelo ru\u00eddo natural dos grilos, O bipe ainda est\u00e1 l\u00e1, menos protagonista, jogando luz sobre o privil\u00e9gio, as din\u00e2micas sociais e a decad\u00eancia industrial da regi\u00e3o.\r\n\r\nO ponto de converg\u00eancia dessas vidas \u00e9 o \u201celefante branco\u201d que as gerou: a f\u00e1brica de alum\u00ednio. Hoje obsoleta e desatualizada, a ind\u00fastria que outrora prometeu progresso, agora entrega polui\u00e7\u00e3o e imobilidade habitacional. Enquanto o alum\u00ednio serve de suporte para a arte, na vida real ele \u00e9 a parede invis\u00edvel que confina os moradores a um distrito fadado a residir ao lado de uma estrutura em decad\u00eancia.\r\nE com essa grava\u00e7\u00e3o, reproduzo num dispositivo sonoro de alum\u00ednio e pedra sab\u00e3o, com uma imagem de uma boca de alimentando gravada sob a face voltada ao visitante do museu. A obra \u00e9 inserida no sobre a \u201cmadeira hist\u00f3rica\u201d de uma das mesas do mobili\u00e1rio colonial do museu, e de certa forma devolve \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o primeiramente utilit\u00e1ria, lembrando que aquele objeto pertenceu \u00e0 vida cotidiana e \u00e0 privacidade da classe m\u00e9dia de Vila Rica.\r\n<h2>Obra 7<\/h2>\r\nPara a \u00faltima obra, intitulada Bandalheira, optei por construir um mosaico de fotografias utilizando o acervo do grupo que empresta o nome \u00e0 obra.\r\n\r\nA Bandalheira Folcl\u00f3rica Ouropretana (BAFO) foi fundada em 10 de janeiro de 1972 em Ouro Preto, pelos ent\u00e3o estudantes de farm\u00e1cia Virg\u00edlio Augusto Alves. Em seu primeiro desfile, a Bandalheira contava com cerca de 25 componentes, todos fantasiados. O uniforme da Bandalheira foi criado no carnaval daquele ano, e at\u00e9 hoje os participantes saem vestidos da mesma forma: cal\u00e7a preta, camisa branca, penico esmaltado na cabe\u00e7a, um rolo de papel higi\u00eanico na cintura, marchando pelas ruas, em ritmo militar acelerado.\r\n\r\nH\u00e1 d\u00e9cadas a Bandalheira participa das comemora\u00e7\u00f5es do Reinado do Momo, sendo uma das atra\u00e7\u00f5es mais tradicionais do carnaval ouropretano, juntamente com o Z\u00e9 Pereira dos Lacaios. Al\u00e9m do carnaval, eles participam das festividades em honra a Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, na prociss\u00e3o e levantamento do mastro.\r\n\r\nPara participar do bloco \u00e9 simples: basta aparecer no dia da sa\u00edda do bloco, trajado nas vestes padr\u00e3o. Os instrumentos podem ser levados pelos foli\u00f5es, mas a pr\u00f3pria bandalheira tamb\u00e9m empresta os instrumentos. Ao som de bumbos, cornetas e outros instrumentos, a Bandalheira percorre todo o circuito do carnaval fazendo seus integrantes \u201cmarcharem\u201d por cerca de sete quil\u00f4metros. Durante o caminho, o bloco visita o batalh\u00e3o do Corpo de Bombeiros para a troca dos oficiais.\r\n\r\nO bloco se origina de uma s\u00e1tira \u00e0 disciplina da ditadura militar das d\u00e9cadas de 60 e 70. Restritos pelo regime da \u00e9poca, seus integrantes fizeram daquela \u201cbagun\u00e7a organizada\u201d e democr\u00e1tica, um protesto n\u00e3o silencioso, mas inteligente ao n\u00edvel de n\u00e3o ser contestado como uma atividade ilegal ou impr\u00f3pria, permitindo que os seus membros n\u00e3o estivessem extremamente vulner\u00e1veis \u00e0 retalia\u00e7\u00e3o.\r\n\r\nInspirada no n\u00famero de quil\u00f4metros percorridos pela trupe e seu conflito barulhento frente aos oficiais militares da \u00e9poca, a obra \u00e9 composta por uma colagem de sete fotografias gravadas em alum\u00ednio, que podem ser reorganizadas e tomar diversas formas, mas ainda mantendo vis\u00edvel uma das principais caracter\u00edsticas dos membros da Bandalheira: a cabe\u00e7a utilizando um penico esmaltado como chap\u00e9u.\r\n\r\n<footer>\u00a9\u00cdtalo Almeida, 2026 - Todos os direitos reservados.\r\n<a href=\"https:\/\/labscript.dev\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\r\nDesenvolvido com \u2665 por Labscript.dev\r\n<\/a>italocharles03@gmail.com\r\n\r\n<a href=\"https:\/\/instagram.com\/cmg_ngm_pod\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">\r\nInstagram\r\n<img decoding=\"async\" style=\"height: 20px;\" src=\"https:\/\/api.iconify.design\/material-symbols-light:arrow-outward.svg\" \/>\r\n<\/a>\r\n\r\n<\/footer>\n    [post_title] => Ato de Escutar, Coisas para Esplanar\n    [post_excerpt] => \u00cdtalo Almeida; 2026\n    [post_status] => publish\n    [comment_status] => closed\n    [ping_status] => closed\n    [post_password] => \n    [post_name] => ato-de-escutar-coisas-para-esplanar\n    [to_ping] => \n    [pinged] => \n    [post_modified] => 2026-09-14 15:17:41\n    [post_modified_gmt] => 2026-09-14 18:17:41\n    [post_content_filtered] => \n    [post_parent] => 0\n    [guid] => https:\/\/cmgngmpod.com\/?post_type=texto&#038;p=1640\n    [menu_order] => 0\n    [post_type] => texto\n    [post_mime_type] => \n    [comment_count] => 0\n    [filter] => raw\n    [url] => https:\/\/cmgngmpod.com\/en\/texto\/ato-de-escutar-coisas-para-esplanar\/\n    [url_target] => _self\n)\n<\/pre> -->\n\n                <!-- Item do Clipping -->\n                <a href=\"https:\/\/cmgngmpod.com\/en\/texto\/ato-de-escutar-coisas-para-esplanar\/\" target=\"_self\" class=\"clipping-item flex flex-row justify-between items-start border-b border-black p-6 md:p-8 hover:bg-black transition-colors duration-300 group cursor-pointer no-underline\">\n\n                  <!-- Esquerda (T\u00edtulo e Resumo) -->\n                  <div class=\"flex flex-col pr-6 md:pr-12\">\n                    <h3 class=\"text-black group-hover:text-white transition-colors duration-300 font-normal text-[18px] md:text-[22px] leading-snug m-0 mb-1 group-hover:underline\">\n                      Ato de Escutar, Coisas para Esplanar                    <\/h3>\n\n                                          <p class=\"text-[#888888] group-hover:text-white transition-colors duration-300 font-light text-[14px] md:text-[16px] leading-snug m-0\">\n                        \u00cdtalo Almeida; 2026                      <\/p>\n                                      <\/div>\n\n                  <!-- Direita (Data) -->\n                  <div class=\"shrink-0 text-black group-hover:text-white transition-colors duration-300 text-[12px] md:text-[14px] uppercase font-medium mt-1\">\n                                      <\/div>\n\n                <\/a>\n\n                              <!-- <pre>WP_Post Object\n(\n    [ID] => 1639\n    [post_author] => 1\n    [post_date] => \n    [post_date_gmt] => 2026-09-04 19:42:31\n    [post_content] => <a href=\"\/\">\n            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/api.iconify.design\/material-symbols-light:arrow-left-alt.svg\" style=\"height: 40px;\" \/>\n          <\/a>\n          <br>\n          <h1>\n            8\u00ba Bolsa Pampulha          <\/h1>\n          <p>\n            Amanda Carneiro, 2022          <\/p>\n          p]:mb-6 [&>*:first-child]:mt-0 mt-[6px] max-w-[950px] [&_h1]:text-2xl md:[&_h1]:text-3xl [&_h1]:font-bold [&_h1]:mb-4 [&_h2]:text-xl md:[&_h2]:text-2xl [&_h2]:font-bold [&_h2]:mb-4 [&_h3]:text-lg md:[&_h3]:text-xl [&_h3]:font-bold [&_h3]:mb-3 [&_strong]:font-bold [&_b]:font-bold [&_em]:italic [&_i]:italic [&_ul]:list-disc [&_ul]:pl-6 [&_ul]:mb-6 [&_li]:mb-2 [&_ol]:list-decimal [&_ol]:pl-6 [&_ol]:mb-6 [&_a]:underline hover:[&_a]:text-gray-600 transition-colors\">\n            <p>A pr\u00e1tica art\u00edstica de \u00cdtalo Almeida se desenvolve em torno dos registros fotogr\u00e1ficos ou audiovisuais de cenas cotidianas, ficcionalizando o que se apresenta como corriqueiro. Em geral, o foco se direciona a transeuntes, \u00e0 vezes desconhecidos, mas tamb\u00e9m figuras pr\u00f3ximas, que se tornam personagens de espa\u00e7os e situa\u00e7\u00f5es urbanas.<\/p><p>O que inicialmente pode parecer uma a\u00e7\u00e3o documental, de inevit\u00e1vel referencialidade social a institui\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es, gestos e modos de ser e estar no mundo, se revela como um procedimento entre o real e a fantasia, marcado por certo ar absurdo constitu\u00eddo de foco em elementos pouco usuais, como uma pose improv\u00e1vel ou um componente visual de potencial ic\u00f4nico.<\/p><p>O uso de cores saturadas e certa irrever\u00eancia operam uma alternativa ao registro que se ambiciona descritivo e fiel. Para a Bolsa Pampulha, o artista se desafiou a lidar com a t\u00e9cnica de tableau, que na fotografia estabelece dialogo com aspectos teatrais e consiste em criar imagens vivas a partir de cenas est\u00e1ticas, em que modelos caracterizados s\u00e3o minuciosamente dirigidos para refor\u00e7ar dimens\u00f5es dram\u00e1ticas ou tr\u00e1gicas. Em uma de suas s\u00e9ries, Almeida destaca a pr\u00e1tica de surf no \u00f4nibus, majoritariamente realizada por jovens perif\u00e9ricos como forma de divers\u00e3o, mas que, por seu car\u00e1ter transgressor e inevitavelmente arriscado, divide opini\u00f5es entre observadores. Muito al\u00e9m da atividade em si, h\u00e1 outros elementos fundamentais nas imagens, como o cabelo descolorido, as vestimentas e sobretudo o jogo entre retratar e ser retratado.<\/p><p>O que para alguns \u00e9 apenas registro e para outros caricato, acaba por operar uma provoca\u00e7\u00e3o. No Viaduto das Artes, essa forma de deleite que se d\u00e1 em ve\u00edculos em movimento \u00e9 refor\u00e7ada por uma fotografia que se refere aos trenzinhos da alegria, aqui, por\u00e9m, as personagens s\u00e3o constitu\u00eddas por membros de uma \u201cfam\u00edlia tradicional mineira\u201d. Diante da imagem, entretanto, \u00e9 poss\u00edvel se questionar quais fam\u00edlias se enquadram no que \u00e9 tradicional mineiro. Esta tamb\u00e9m \u00e9<\/p><p>base para a instala\u00e7\u00e3o de tr\u00eas outras imagens, em que se v\u00ea uma senhora no supermercado, um bar de bilhar e uma cena de briga de bar numa fila de boate, em que ocorre uma n\u00edtida tens\u00e3o de car\u00e1ter racial. Intitulada \u00abTente usar a roupa que eu estou usando\u00bb, a s\u00e9rie elabora uma alegoria visual de viv\u00eancias comuns \u00e0 jovem gera\u00e7\u00e3o belo-horizontina da qual o artista faz parte.<\/p>          \n\t\t\t\t\t    <footer>\n          <p>\n            \u00a9\u00cdtalo Almeida, 2026 - Todos os direitos reservados.\n            <a href=\"https:\/\/labscript.dev\/\" target=\"_blank\">\n              Desenvolvido com \u2665 por Labscript.dev\n            <\/a>\n          <\/p>\n          <p>italocharles03@gmail.com<\/p>\n          <a href=\"https:\/\/instagram.com\/cmg_ngm_pod\"  target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">\n            Instagram\n            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/api.iconify.design\/material-symbols-light:arrow-outward.svg\" style=\"height: 20px;\" \/>\n          <\/a>\n    <\/footer>\n    [post_title] => 8\u00ba Bolsa Pampulha\n    [post_excerpt] => Amanda Carneiro; 2022\n    [post_status] => publish\n    [comment_status] => closed\n    [ping_status] => closed\n    [post_password] => \n    [post_name] => 8o-bolsa-pampulha\n    [to_ping] => \n    [pinged] => \n    [post_modified] => 2026-09-04 19:11:17\n    [post_modified_gmt] => 2026-09-04 22:11:17\n    [post_content_filtered] => \n    [post_parent] => 0\n    [guid] => https:\/\/cmgngmpod.com\/?post_type=texto&#038;p=1639\n    [menu_order] => 0\n    [post_type] => texto\n    [post_mime_type] => \n    [comment_count] => 0\n    [filter] => raw\n    [url] => https:\/\/cmgngmpod.com\/en\/texto\/8o-bolsa-pampulha\/\n    [url_target] => _self\n)\n<\/pre> -->\n\n                <!-- Item do Clipping -->\n                <a href=\"https:\/\/cmgngmpod.com\/en\/texto\/8o-bolsa-pampulha\/\" target=\"_self\" class=\"clipping-item flex flex-row justify-between items-start border-b border-black p-6 md:p-8 hover:bg-black transition-colors duration-300 group cursor-pointer no-underline\">\n\n                  <!-- Esquerda (T\u00edtulo e Resumo) -->\n                  <div class=\"flex flex-col pr-6 md:pr-12\">\n                    <h3 class=\"text-black group-hover:text-white transition-colors duration-300 font-normal text-[18px] md:text-[22px] leading-snug m-0 mb-1 group-hover:underline\">\n                      8\u00ba Bolsa Pampulha                    <\/h3>\n\n                                          <p class=\"text-[#888888] group-hover:text-white transition-colors duration-300 font-light text-[14px] md:text-[16px] leading-snug m-0\">\n                        Amanda Carneiro; 2022                      <\/p>\n                                      <\/div>\n\n                  <!-- Direita (Data) -->\n                  <div class=\"shrink-0 text-black group-hover:text-white transition-colors duration-300 text-[12px] md:text-[14px] uppercase font-medium mt-1\">\n                                      <\/div>\n\n                <\/a>\n\n                              <!-- <pre>WP_Post Object\n(\n    [ID] => 1638\n    [post_author] => 1\n    [post_date] => \n    [post_date_gmt] => 2026-09-04 19:40:04\n    [post_content] => <a href=\"\/\">\n            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/api.iconify.design\/material-symbols-light:arrow-left-alt.svg\" style=\"height: 40px;\" \/>\n          <\/a>\n          <br>\n          <h1>\n            Pol\u00edtica da Escuta          <\/h1>\n          <p>\n            Ana Avelar, 2026          <\/p>\n          p]:mb-6 [&>*:first-child]:mt-0 mt-[6px] max-w-[950px] [&_h1]:text-2xl md:[&_h1]:text-3xl [&_h1]:font-bold [&_h1]:mb-4 [&_h2]:text-xl md:[&_h2]:text-2xl [&_h2]:font-bold [&_h2]:mb-4 [&_h3]:text-lg md:[&_h3]:text-xl [&_h3]:font-bold [&_h3]:mb-3 [&_strong]:font-bold [&_b]:font-bold [&_em]:italic [&_i]:italic [&_ul]:list-disc [&_ul]:pl-6 [&_ul]:mb-6 [&_li]:mb-2 [&_ol]:list-decimal [&_ol]:pl-6 [&_ol]:mb-6 [&_a]:underline hover:[&_a]:text-gray-600 transition-colors\">\n            <p>Ao entrar no Museu da Inconfid\u00eancia, sentimos o espa\u00e7o de conten\u00e7\u00e3o. A arquitetura, os objetos hist\u00f3ricos e a pr\u00f3pria expografia convidam ao sil\u00eancio e \u00e0 repress\u00e3o de nossos corpos, como se a hist\u00f3ria pudesse ser apreendida apenas pela contempla\u00e7\u00e3o das formas preservadas. Por\u00e9m, esse aparente sil\u00eancio respeitoso n\u00e3o \u00e9 exatamente uma aus\u00eancia de som. Ele \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o cultural, produzida pelas institui\u00e7\u00f5es museais para conter a presen\u00e7a do corpo diante de determinadas narrativas e converter conflitos hist\u00f3ricos em fragmentos de uma mem\u00f3ria aparentemente em consenso.<\/p><p>Ru\u00eddos se Organizam, exposi\u00e7\u00e3o de \u00cdtalo Almeida que integra o Programa de Interven\u00e7\u00f5es do Museu da Inconfid\u00eancia, desloca esse regime de escuta. Resultado de uma resid\u00eancia de quatro meses em Ouro Preto, a exposi\u00e7\u00e3o nasce da percep\u00e7\u00e3o de que a cidade pode ser compreendida n\u00e3o apenas por suas igrejas, monumentos ou fachadas coloniais, mas por uma cosmologia sonora que atravessa sua hist\u00f3ria e continua reverberando no presente. Antes de investigar imagens, o artista dedicou-se a ouvir: os sons cotidianos dos bairros perif\u00e9ricos, as m\u00fasicas religiosas, as narrativas orais, os ecos das f\u00e1bricas de alum\u00ednio, os ritmos das congadas, os deslocamentos dos jovens cavaleiros \u2013 de hoje e de ontem \u2013 , os rumores que escapam aos roteiros tur\u00edsticos.<\/p><p>Ao longo da hist\u00f3ria mineira, homens e mulheres afrodescendentes produziram parte decisiva dessa paisagem ac\u00fastica. Foram m\u00fasicos das irmandades religiosas, trombeteiros escravizados, artes\u00e3os, trabalhadores das minas e das f\u00e1bricas, integrantes de congados, foli\u00f5es. Em muitos casos, seus corpos permanecem pouco representados nos acervos visuais ouropretanos. Seus sons, entretanto, estruturaram profundamente a experi\u00eancia social do territ\u00f3rio. A exposi\u00e7\u00e3o prop\u00f5e ouvir justamente aquilo que permaneceu nas margens da narrativa monumental.<\/p><p>Em vez de ilustrar essa hist\u00f3ria, Almeida constr\u00f3i dispositivos que a reativam. O som deixa de funcionar como ambienta\u00e7\u00e3o e torna-se mat\u00e9ria escult\u00f3rica. Vibra, ocupa o espa\u00e7o, atravessa superf\u00edcies, conecta objetos e reorganiza a circula\u00e7\u00e3o do visitante.<\/p><p>A instala\u00e7\u00e3o \u201cMiserere No. 1\u201d talvez sintetize esse gesto. Ao ocupar uma das salas centrais do Museu da Inconfid\u00eancia, a obra reinscreve naquele espa\u00e7o a m\u00fasica composta por Manoel Dias de Oliveira, mestre negro cuja produ\u00e7\u00e3o integrou a tradi\u00e7\u00e3o sacra mineira. Quatro torres de alum\u00ednio conectadas por cordas vibrat\u00f3rias transformam a arquitetura em caixa de resson\u00e2ncia. Sobre elas repousam s\u00edmbolos Adinkra, evocando cosmologias africanas que sobreviveram sob diferentes formas na cultura mineira. O pante\u00e3o dos inconfidentes tem seu eixo deslocado da pedra para a vibra\u00e7\u00e3o, da perman\u00eancia para a escuta.<\/p><p>Essa mesma opera\u00e7\u00e3o reaparece em diferentes dimens\u00f5es ao longo da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p><p>Em \u201cConfia na Boca\u201d, a palavra oral confronta os sistemas de vigil\u00e2ncia e registro; nas fotografias \u201cCavaleiro I\u201d e \u201cCavaleiro II\u201d, os antigos trombeteiros coloniais encontram seus correspondentes contempor\u00e2neos nos jovens que percorrem as periferias montados a cavalo e acompanhados por caixas de som; em \u201cJantar\u201d, a mesa hist\u00f3rica do museu volta a ser objeto de uso simb\u00f3lico, convertendo-se em suporte para refletir sobre as desigualdades espaciais produzidas pela minera\u00e7\u00e3o industrial; em \u201cGunga I\u201d, o instrumento ritual do Congado aparece como extens\u00e3o do corpo e da mem\u00f3ria coletiva.<\/p><p>Cada trabalho evidencia que os sons n\u00e3o apenas acompanham a hist\u00f3ria: eles produzem territ\u00f3rios, organizam comunidades e disputam formas de pertencimento.<\/p><p>A escolha dos materiais refor\u00e7a essa dimens\u00e3o pol\u00edtica. Assim, o alum\u00ednio, frequentemente chamado de \u201csegundo ouro\u201d de Minas Gerais, aproxima a economia colonial da minera\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Se o ouro estruturou a forma\u00e7\u00e3o de Vila Rica, o alum\u00ednio marcou a industrializa\u00e7\u00e3o do estado e a experi\u00eancia de milhares de trabalhadores submetidos ao ru\u00eddo incessante das f\u00e1bricas.<\/p><p>Ao lado dele, a pedra-sab\u00e3o \u2014 extra\u00edda e trabalhada por artes\u00e3os locais desde o s\u00e9culo XVIII \u2014 reinscreve saberes manuais historicamente vinculados ao territ\u00f3rio. Desse modo, o encontro entre esses materiais produz uma arqueologia cr\u00edtica da pr\u00f3pria mat\u00e9ria mineira.<\/p><p>Ao longo da exposi\u00e7\u00e3o, percebe-se que o ru\u00eddo n\u00e3o aparece como met\u00e1fora da desordem. Ao contr\u00e1rio, ele constitui uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p><p>\u00c9 pela m\u00fasica que irmandades negras constru\u00edram reconhecimento; pela oralidade que comunidades preservaram mem\u00f3rias; pelo toque da gunga que o Congado articula corpo e espiritualidade; pelas caixas de som que jovens ocupam territ\u00f3rios hoje invis\u00edveis para o circuito tur\u00edstico; pela s\u00e1tira sonora da Bandalheira que o controle pol\u00edtico foi temporariamente interrompido durante a ditadura militar. Tais sons n\u00e3o s\u00e3o res\u00edduos da hist\u00f3ria, mas tecnologias de sobreviv\u00eancia.<\/p><p>Ao deslocar o Museu da Inconfid\u00eancia de um espa\u00e7o dedicado prioritariamente ao olhar para um campo expandido da escuta, Ru\u00eddos se Organizam prop\u00f5e uma pergunta fundamental: o que permanece inaud\u00edvel quando transformamos a hist\u00f3ria em patrim\u00f4nio? A resposta n\u00e3o consiste em preencher lacunas ou corrigir definitivamente a narrativa institucional.<\/p><p>O que a exposi\u00e7\u00e3o oferece \u00e9 outra possibilidade de conviv\u00eancia com o passado: compreender que toda mem\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m uma disputa pelas frequ\u00eancias que escolhemos amplificar.<\/p><p>Diante disso, a exposi\u00e7\u00e3o revela que o sil\u00eancio do Museu sempre esteve atravessado por ru\u00eddos que a hist\u00f3ria oficial preferiu n\u00e3o escutar. O trabalho de \u00cdtalo Almeida consiste justamente em organiz\u00e1-los para que possamos ouvi-los com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>          \n\t\t\t\t\t    <footer>\n          <p>\n            \u00a9\u00cdtalo Almeida, 2026 - Todos os direitos reservados.\n            <a href=\"https:\/\/labscript.dev\/\" target=\"_blank\">\n              Desenvolvido com \u2665 por Labscript.dev\n            <\/a>\n          <\/p>\n          <p>italocharles03@gmail.com<\/p>\n          <a href=\"https:\/\/instagram.com\/cmg_ngm_pod\"  target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">\n            Instagram\n            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/api.iconify.design\/material-symbols-light:arrow-outward.svg\" style=\"height: 20px;\" \/>\n          <\/a>\n    <\/footer>\n    [post_title] => Pol\u00edtica da Escuta\n    [post_excerpt] => Ana Avelar; 2026\n    [post_status] => publish\n    [comment_status] => closed\n    [ping_status] => closed\n    [post_password] => \n    [post_name] => politica-da-escuta\n  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