Cavaleiros I e Cavaleiros II perpetuam meu impeto de trabalhar com fotografia tableau, técnica na qual venho me aprofundando nos últimos anos, desenvolvidas durante a minha residência artística no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, em 2025. A ideia para essas obras nasceu do contato direto com a dinâmica das periferias da cidade, onde é recorrente a presença de jovens e meninos cavalgando com som alto por bairros afastados do centro colonial, afirmando sua presença e marcando o território através do ruído.
Essa vivência cotidiana convergiu com as minhas leituras do livro Boa Ventura, de Lucas Figueiredo, no qual me deparei com a figura histórica do "preto trombeteiro" dos séculos XVIII e XIX em Vila Rica. Esse personagem atua na anunciação de eventos e partidas, circulando pelas bordas e caminhos distantes do núcleo urbano.
Diante da escassez de registros e imagens históricas dessa ocupação, associei imediatamente essa figura histórica aos jovens do funk e seus cavalos no cenário contemporâneo, buscando construir um imaginário visual para essa profissão e para esse corpo que margeava a cidade fazendo barulho.
Embora não formem um díptico em sentido estrito, as duas obras estabelecem um diálogo direto por meio da repetição intencional dos mesmos códigos de composição. Em ambas, a figura do cavalo aparece centralizada na imagem, acompanhada pela projeção da mão que segura o instrumento propulsor do som, tendo ao fundo paisagens marcantes das bordas de Ouro Preto, como o Parque das Andorinhas, o Morro da Queimada e a silhueta do Pico do Itacolomi. Ao articular o passado colonial e o presente das margens urbanas, busco investigar como o som e a presença desses corpos continuam a reorganizar e ressignificar o território.